14 de jul. de 2008

branco

Plante uma árvore, tenha um filho, faça um livro. Necessariamente nessa ordem, por favor. Foram 41 anos esperando. Não o filho nem a árvore, as páginas da criatividade. Fiz o filho, mas não o tenho. Tenho livros. Comprei, obviamente nem os li.
Pai médico e poeta, mãe professora de português, russo e alemão. Irmãos e irmãs médicos, advogados e poetas. Eu ali no meio, nascido e esquecido entre os três mais velhos e os três mais novos, no meio das letras pomposas de suas proficiências tolas. É difícil crescer esmagado pela vanguarda dos primeiros e pelo saudosismo fértil dos últimos.
Mas o potencial autor vai. Senta-se à mesa, conversa consigo e faz toda a encenação dramática. Xícara de café meio quente meio frio, cigarro no cinzeiro – apagado porque não fumo –, mãos pelos cabelos e expressão de tudo-está-prestes-a-sair-da-mente.
Devia ter lido mais, dizem as mais ágeis mentes. Se em pensamento a primeira pessoa mistura-se à terceira, serei eu a escrever algo que não sobre mim já é?
Escritores têm gatos. Fazem parte da encenação. Mas e a alergia? Esqueça. Mãos à velha Remington, a de teclas e não balas – cenografia digna de prêmio. Ela nem funciona mais, não troco meu velho Pentium por peça de museu qualquer. Tudo encenação. Inspire-se. Sobre quem? O que? Quando e onde? Nada.
Ao olhar para a tela em branco, o escritor se deu conta de que não tinha mais nada a dizer. Eu já disse tudo que ele poderia querer dizer um dia.
Deve ser o tal do ócio criativo. Alguém já escreveu sobre isso e não li.
Vai ver minha falta de proficiência tola é culpa da árvore que ainda não plantei.
É muito difícil estar no meio disso, de todos eles seis.
Um romance trágico familiar. É disso que um autor precisa.
A árvore fica para depois.

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